Negociações difíceis. Resultados possíveis

Sem absolutamente emitir qualquer juízo de valor, até mesmo pela absoluta falta de maiores detalhes a respeito do tema de fundo bem como diante da sua complexidade, quero trazer um exemplo de como as negociações podem ganhar muito maior eficácia – e até salvar mais vidas, quando se busca manter um viés mais cooperativo nas negociações ao invés do tradicional perde-ganha.

Refiro-me ao interessante comentário assinado hoje por Katie Shonk no blog do Programa de Negociação de Harvard (https://www.pon.harvard.edu). Nesse aparentemente singelo artigo, mas tremendamente instigador, como buscarei demonstrar na sequência, a autora reporta a negociação entre o governo norte-americano e o laboratório farmacêutico Pfizer durante o segundo semestre do ano passado. Segundo ela, durante a primeira fase da negociação para aquisição de vacinas contra a COVID em 2020, os “funcionários da Pfizer instaram a administração de Trump a encomendar mais doses de sua vacina, que se mostrava promissora nos primeiros testes. A Pfizer alertou que ‘a demanda pode superar a oferta’, relata o Times. Mas a Casa Branca se recusou a assumir novos compromissos com a vacina”.

O governo teria optado por manter a estratégia global de adquirir vacinas de diferentes laboratórios (o que parece ser o mais racional e seguro a fazer), bem como de confirmar a sua programação inicial de adquirir 100 milhões de doses da Pfizer, o que acabou acontecendo somente em dezembro. Neste interim, a Pfizer teria se comprometido com a venda de seu produto para os países europeus (200 milhões) e para a China (100 milhões) antes de fechar com o governo Trump.

Ademais, a Pfizer teria se recusado a receber qualquer subsídio das autoridades norte-americanas para o desenvolvimento do seu produto a fim de manter sua total autonomia no processo de desenvolvimento e distribuição. Já governo Trump teria sinalizado com a possibilidade de criar incentivos em favor da Pfizer desde que houvesse garantia de que os benefícios concedidos fossem priorizados para abastecer os EUA com o produto gerado pelo laboratório alemão. Será que não existiria um ponto de equilíbrio entre um interesse (autonomia) e outro (soberania)?

Obviamente, a complexidade deste contexto é muito maior. Como se diz no popular: “Isto é briga de cachorro grande”! No entanto, se tivesse havido um esforço de maior de cooperação e transparência desde o princípio da negociação, e ao longo da sua evolução, talvez os EUA tivessem adquirido um volume maior de vacinas ou quiçá a mesma quantidade em tempo menor. Ora, tais alternativas poderiam ter resultado na salvação de mais vidas ou ao menos contribuiriam na redução da tensão das áreas de saúde dos EUA diante dos números ainda alarmantes da expansão do coronavírus naquele país.

Difícil saber, mas fica a lição para os agentes políticos de todos os países, inclusive o Brasil, no sentido de buscar soluções mais rápidas e seguras, baseadas na confiança e na cooperação e, ainda, fundadas na ciência e no bom senso!

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