Liderança generativa e propósito de vida

Ricardo D. C. Barcellos, mediador, advogado e consultor em gestão de conflitos; “Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade!” (Cervantes); rbarcellos.adr@gmail.com

Após mais de trinta anos de prática como advogado e líder de projetos e equipes em grandes escritórios, resolvi agregar novos desafios à minha vida – sair da famosa “zona de conforto”; decidi construir uma nova trajetória profissional como mediador (“peace maker”), o que, com o passar dos anos, se tornou para mim uma nova paixão.

A mediação, contudo, ainda é uma atividade em processo de consolidação no Brasil e que necessita de muito investimento e apoio de diferentes stakeholders (advogados, empresários, diretores de empresas, universidades e autoridades públicas, em especial do poder executivo)

Para aprofundar meu conhecimento e prática deste método de resolução de conflitos calcado na facilitação da comunicação entre partes com o propósito de resolver variados tipos de conflitos, eu busquei montar um mosaico que reunisse conceitos específicos (em especial dentro da área do direito com um mestrado no exterior) com novas práticas na área de comunicação, autoconhecimento e liderança dada a fase ainda inicial da mediação no Brasil (a lei tem apenas 5 anos de vigência).

Ou seja, não bastava apenas o conhecimento técnico específico, mas também era e é fundamental agregar novas habilidades em outros campos de aprendizagem sobretudo do comportamento humano.

Iniciei assim uma jornada cheia de questionamentos: O que fazer diante de um desafio gigantesco como esse? Uma nova carreira em um mercado ainda embrionário? Como deixar uma contribuição, um legado, para que as próximas gerações tenham modos mais inteligentes e menos dolorosos de resolver seus conflitos? Como conciliar isso tudo de forma profissional, orgânica e eficiente, ainda por cima em meio a uma pandemia?

Enfim, muitas perguntas e muitas incertezas. De certeza apenas duas: para empreender algo que realmente tivesse valor e significado para mim, seria preciso sonhar grande e, para alcançar resultados que me trouxessem satisfação, seria essencial buscar apoio de outras pessoas que tivessem inspirações similares ou complementares. Unidos efetivamente somos mais fortes!

Aí surgiram novas perguntas: Para que? O que? Com quem? Como?

Para encontrar essas e outras respostas, busquei em 2020 um programa que conciliasse conceitos de autoconhecimento com o desenvolvimento de novas e mais humanizadas práticas de liderança sobretudo para melhor trabalhar em times e organizações. Nesta trilha, mergulhei em um programa teórico-experiencial que incorpora estruturas conversacionais, de ressignificação emocional e somática, com o propósito de gerar maior satisfação e cooperação na interrelação entre pessoas seja no ambiente de trabalho ou mesmo em casa.

O primeiro conceito trazido por Bob Dunham, que desenvolveu essa metodologia após anos de experiência como executivo no Silicon Valley e depois como coach, é de que todos nós somos observadores distintos da mesma realidade. O astrólogo enxerga as estrelas de uma forma distinta do que o astrônomo ou um leigo, assim como o sommelier é capaz de identificar a presença de aromas exóticos no vinho enquanto o apreciador comum não. Somos, em síntese, um somatório das nossas experiências de vida e dos conhecimentos acumulados ao longo dos anos. A partir deste caldeirão de histórias moldamos lentes que nos fazem enxergar o mundo de diferentes formas, mas podemos, a qualquer tempo, ajustar nossos “óculos”.

Além disso, a chamada liderança generativa trabalha o conceito de ator, como o agente das mudanças que queremos implementar nas nossas vidas através de novas práticas conversacionais e somáticas que nos permitem uma melhor comunicação e alinhamento de propósitos. Ou seja, não é apenas o “dar-se conta” do que se passa comigo, mas também dotar esse novo observador de habilidades que estão adormecidas ou que podem ser desenvolvidas e aprimoradas para dar corpo a tal mudança de atitude no âmbito pessoal (chamado de me space) e junto aos meus pares (we space).

Podemos, resumidamente, eleger o futuro que queremos viver a partir das nossas próprias escolhas e das escolhas de quem nos conectamos ao longo do caminho.

A liderança generativa trabalha nesse sentido, perpassando pelos domínios emocionais, linguísticos e corporais, assim como resignificando a história que nos contamos sobre nós mesmos através da criação de novos espaços de aprendizagem, somada a inúmeras práticas para incorporar tais habilidades para facilitar essa conexão.  

No meu caso, eu estou buscando construir uma trajetória profissional que seja coerente com meu atual momento de vida que inclui o sonho de deixar um legado para as próximas gerações.

A prática generativa está me mostrando que essa mudança de rota de navegação somente é possível após eu trabalhar individualmente tais domínios, expandindo minhas habilidades como protagonista deste futuro que quero criar junto com outros.

Outra constatação importante da mirada generativa é que todos nós somos seres conversacionais. Criamos realidades novas e vivenciamos esses mundos interpretativos ativamente através das conversas que temos ou que não temos em casa ou no trabalho, com nossos pares ou filhos, sócios ou equipe. A crítica feita sem contextualização ou a definição de objetivos sem a identificação de um propósito prévio e comum a todos (um care do time) são exemplos de como é possível gerar felicidade ou profunda insatisfação seja no ambiente familiar, seja no mundo corporativo. Quantos casamentos acabam porque conversas não são abertas; quantas empresas quebram porque inexiste um propósito que realmente faça sentido para os que nelas trabalham!

Quando alguém assume uma posição de gerência ou diretoria em uma organização, a liderança decorre, incialmente, da própria investidura do cargo em si, o que pode ser algo efêmero – em especial se os resultados financeiros não aparecem em um determinado espaço de tempo.

Liderança não é sinônimo de chefia ou de geração de resultado, mas de geração de satisfação, de completude que acontece quando esse protagonista passa a zelar pela “promessa compartilhada” por sua equipe de trabalho, e vice-versa, que inclui outras entregas como, por exemplo, a geração de confiança, abertura e conexão.

Através das práticas da liderança generativa é possível desenvolver habilidades que permitem constituir e perpetuar nas empresas a tal promessa compartilhada entre o líder e sua equipe, o que é chamado de care. Ou seja, não basta ter a “missão” e o “valor” escritos na recepção ou no site da companhia que automaticamente aquilo fará sentido para todos. Logicamente não se pode esperar que esse alinhamento seja assimilado da noite para o dia. Como salienta Bob Dunham, o importante é dar “pequenos passos” em especial criando a consciência da existência dos domínios que podem ser trabalhados (somático, emocional, linguístico e de ressignificação da sua história de vida) para depois expandir esse empoderamento entre os diferentes protagonistas existentes dentro das empresas ou junto à sua equipe de trabalho. E qual é a mágica para que isso aconteça? Pasmem! São conversas.

Isto significa que tal mudança se trata de algo fácil? Claro que não!

É uma missão bastante desafiadora, pois é necessário deixar velhos hábitos para trás. Então, qual o segredo dessa mudança? Prática, prática e prática.

Conversas constitutivas de um futuro que todos desejam construir juntos; conversas para criar promessas e gerar compromissos; conversas para coordenar ações e acompanhar sua evolução e respectivos resultados; negociar e renegociar condições de satisfação, gerenciar breakdowns e assim por diante.

Ao fim e ao cabo, esse futuro compartilhado pode ser algo tão grande quanto o próprio tamanho da empresa ou customizado para um projeto específico que, por alguma razão, não está logrando o resultado desejado. Pode servir, ainda, como no meu caso, para empreender e criar um novo projeto que tenha valor e significado para mim, evidentemente, e para quem se juntar a esse sonho de consolidar no Brasil um modelo mais eficiente e humanizado de gestão e resolução de conflitos.

Vejam que a liderança generativa não é algo lúdico ou fantasioso. De certa forma, eu ousaria definir como uma feliz união da parte dura, e necessária, da gestão de projetos com os chamados soft skills. Estou me referindo aos conceitos de empatia, escuta ativa, resiliência e outras habilidades conversacionais com a inclusão de temas emocionais e somáticos na construção do tal líder generativo. E afinal, generativo do que? Da construção de um futuro que tenha valor e significado para todos os membros da equipe, com diferentes níveis de satisfação logicamente. 

Ao fim e ao cabo, o que se busca é a criação de um ambiente mais humanizado e que ao mesmo tempo seja capaz de atingir os resultados desejados através da construção de uma ponte que une o propósito maior da empresa ou do time com as ambições e, porque não dizer, com os sonhos de cada indivíduo ancorados a um care.

O escopo e abrangência desse alinhamento dependerá de inúmeros fatores, sobretudo do engajamento e abertura do líder para buscar o aprimoramento do seu poder de gerar conversas inspiradoras com o viés trazido por essa nova mirada sem descuidar do planejamento e do atingimento do resultado esperado.

Diante de tudo isso, meu espaço de aprendizagem se mostra muito mais amplo com o aparecimento de algumas potencialidades e habilidades que antes não eram sequer conhecidas por mim.

A partir do aprimoramento do meu protagonismo é possível não apenas sonhar com a consolidação e expansão da mediação no Brasil, mas também aterrar esse meu desejo através de práticas de liderança capazes de fortalecer a musculatura necessária para que esse movimento aconteça de forma colaborativa e criativa junto a outras pessoas que compartilham do mesmo sonho. O passo seguinte é construir compromissos entre todos da equipe com condições de satisfação claras e atendidas, e, assim, gerar ações e resultados que atendam o propósito comum a todos onde há verdadeiramente tal interconexão.

Quando esse alinhamento acontece, e já está acontecendo, novas perspectivas surgem como quando o alpinista chega no topo da montanha e olha no horizonte sem fim. Por enquanto eu sigo escalando! PALAVRAS CHAVE: mediação, coaching ontológico, liderança generativa, care,  propósito, líder, protagonismo, resultados e humanização.

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